
Falar pedagogicamente da arte-luta capoeira, para mim é um papo filosófico, cultural, educacional e desportivo muito importante no sentido de valorização por nossa cultura.
A cultura corporal desenvolvida através da capoeira, é uma das características do nosso povo, sendo a mesma sinônimo de “liberdade” e “expressão corporal”. Já em outras culturas corporal como as lutas, as danças, as musicas, etc, não trazem essa expressividade no sentido da malandragem corporal, que nós brasileiros temos.
Essas culturas "estrangeiras", que por sua vez são sempre importadas, chegando até nós no sentido de valorização (as vezes meio que impostas) através das escolas (educação física, por exemplo), escolinhas, cinema, instituição de ensino, entre outras. Eu não tenho nada contra essas importantes culturas, mas infelizmente, algumas dessas culturas nós deixam meio que americanizados ou mesmo euro-robotizados “corporalmente”, ou seja, um comportamento corporal com outras características físicas. É como se maquiassem o nosso comportamento, nós privando de tais sentimentos como os da “liberdade” e os da “malandragem corporal”. Malandro que é malandro, tem que saber mexer muito bem.
Voltando a capoeira, para mim em particular não existe papo melhor! Falar da arte-luta capoeira, é como se eu estivesse em transe mais um transe educacional e pedagógico de dar inveja a qualquer medicamento alternativo e a qualquer exorcismo espiritual. Ou seja, a capoeira, é algo que alimenta a minha mente e acalma a minha alma! Alem de sustentar a minha família, é claro.
Mais hoje em dia, dividir conhecimentos ou contribuir para o esclarecimento junto á comunidade capoeiristica bem como a comunidade de um modo geral, não é nada fácil! É uma complexidade tremenda que me faz lembrar de uma outra: “quem veio primeiro, o ovo ou a galinha”?
Esclarecer para um capoeirista (independentemente do tempo que ele tenha de pratica) que ele é limitado perante as pessoas que trabalham com a capoeira de forma pedagógica, não é nada fácil. O mais importante é que eu tento! O que eu ganho com isso? Nada! Mais a capoeira, demonstra mais uma vez ser muito mais do que um simples jogo de piruetas e acrobacias.
Recentemente eu participei (isso não é uma critica, é somente um relato!) das primeiras reuniões com as coordenadoras dos CECONS (Centro de Jornada Continuada) fiquei surpreso e ao mesmo tempo ansioso porque apesar da vontade que elas têm de desenvolver uma educação de qualidade em nosso município, mais mesmos assim, elas não tinham conhecimentos de como a capoeira poderia ser trabalhada de forma pedagógica e educacional dentro das escolas.
Por um lado isso é bom, me faz ser muito mais profissional!
A minha surpresa se deve a questão de que a capoeira, vem crescendo dia-a-dia junto às instituições de ensino em nível de Brasil. Já na questão da ansiedade eu fiquei por começar logo o trabalho e demonstrar que a arte da capoeira, tem sim um lugar junto das escolas. Um lugar chamado disciplina da capoeira ou caminhos curriculares através da capoeira. Enfim, chamem do que quiser, mas digam que hoje, a capoeira, faz parte da escola!
Bom, mais uma vez eu me pergunto e me respondo á seguinte questão: “dentro da escola devemos ser mestre de capoeira ou educador”? Aproveito também para resumir o meu ponto de vista sobre essa importante questão para não fugir do titulo de hoje.
Se a escola tem por principio formar cidadãos críticos e conscientes, devemos ser educadores. Agora, se a escola estiver preocupada em formar atletas, devemos ser o mestre de capoeira propriamente dito. Pois o mestre tem uma bagagem muito grande na questão desportiva, ou seja, na “arte de lutar sorrindo”.
Mais a diferença de quem trabalha com a capoeira, para quem é capoeirista é enorme, isso porque aconteceram alguns equívocos na formação (cultural, educacional e pedagógica) desse mesmo capoeirista, dando assim, algumas conotações diferentes em sua formação de mestre, professor, instrutor ou mesmo aluno graduado na capoeira.
Volto a reafirmar mais uma vez, que hoje em dia, o capoeirista não tem que lutar mais para se defender. Já caiu o código penal (1890 a 1930) em que a capoeira, fazia parte do mesmo e, onde o capoeirista pegava de seis meses a dois anos de prisão na ilha de Fernando de Noronha.
Bom, já que eu estou falando de quem trabalha (pode ser qualquer profissional) com a capoeira, imagine, agora, um professor de educação artística trabalhando com a capoeira através de desenhos, musicas, colagem, formas geométricas, gravuras ou as belas pinturas como as dos pintores francês Debret e o alemão Johann Moritz Rugendas que no século XVIII, retrataram a capoeira em belíssimos quadros? Imaginemos um professor de educação física realizando vivencias com a capoeira no sentido da pscomotrociadade? Imaginemos um professor de português trabalhando com as cantigas da capoeira na questão da alfabetização, poema como o do “navio negreiro” ou talvez composição musical envolvendo a questão da escrita e a capoeira. Um professor de história falando sobre a importância que capoeira teve diante das invasões holandesas (1624), guerra do Paraguai (1865 a 1869), revolta dos batalhões mercenários (1828), a primeira crise ministerial (1890), O livro “A Arte da Gramática de Língua mais Usada na Costa do Brasil” (1595) onde o padre Jose de Anchieta, faz uma citação dos índios e a capoeira, A criação da Guarda Negra, que em 1888 foi criada para salvar a monarquia contra os republicanos. Continuando ainda na questão da imaginação: o professor de teatro trabalhando com o contexto envolvendo a capoeira, O professor de geografia falando sobre a capoeira do ponto de vista geográfico. Enfim, são tantas as possibilidades que a capoeira pode ser desenvolvida por quem pode trabalhar com a capoeira. Isso até é bom para nós capoeiristas porque nós deixa com um pouco de receio na questão da profissionalização junto ao mercado de trabalho. Ai é: “quem não se capacita se trumbica”. Essa frase é um trocadilho da frase do o velho guerreiro Chacrinha.
Já o capoeirista nada mais é que um ser limitado do ponto do educador. Explico: dentro da escola se educa, ai entra o papel do educador como se educa também nas ONGs, Associações de bairros, Centros comunitários, etc. Vejamos: o capoeirista, é um personagem da capoeira que, infelizmente, só da vida para esse personagem, quando ele esta jogando na roda ou mesmo participando diretamente da mesma. Mais isso não quer dizer que o capoeirista não seja uma pessoa importante para o meio. Até porque se não eu estaria desvalorizando a mim mesmo. E não é por ai. Mais todo o bom capoeirista tem que saber dar o seu devido valor. Enfim, se capacitar, ser sempre profissional de preferência, ser um educador dentro da escola e, por fim, deve ser sim um capoeirista da roda de capoeira, mas a roda que eu estou falando fica dentro da escola.
Todo bom capoeirista tem que entender algumas coisas do ponto de vista da educação, e que ainda, a sua capoeira, tem que ter o tempero da igualdade, da liberdade, da fraternidade. Ou isso ou ele vai ser mais um capoeirista frustrado ao ver vários profissionais de outras áreas especificas trabalhando com a capoeira.
É preciso muita seriedade com a capoeira, até porque se não um dia alguém vai escrever: Quem trabalha com a capoeira, esta desempregando os capoeiristas.
É ver para crer.